O escritor e o público [conto]

Senti a cabeça martelando e um zumbido contínuo vindo do mundo lá fora. Qualquer coisa me faria melhor que acordar. Senhor, porque tem uma mulher pelada do meu lado na cama? Imagino que o Senhor, com toda Sua sabedoria, está punindo-a por algum pormenor que ésta alma errante tenha aprontado nessa vida, mas isso precisa refletir em mim? Não poderia eu, um reles servo, me conformar em perceber, ao despertar, que fui abandonado pela minha amásia na madrugada, e sofrer o resto da vida por essa dolorosa rejeição? Transformar isso em inspiração para escrever um best seller que iria virar filme, série, bonequinhos, memes, assunto no You Tube… “Vou fazer café e vou embora.” Obrigado. “Não tem pó.” Algumas vezes a realidade cruel se revela como um flagelo necessário para um bem maior. Mais uma vez eu sei. Certamente já teria dado cabo de mim mesmo, ou de alguém, se tivesse trabalho bem remunerado, casa própria e pó de café. Cabe a mim apenas aceitar. Agradecer por ainda poder desfrutar de pão duro com margarina solitariamente, e seguir em frente. Ligar o rádio, torcer para tocar Hendrix, acender um cigarro e esperar deitado no sofá alguma coisa acontecer, uma ideia surgir ou o mundo acabar. Quando estava perto de me sentir completamente satisfeito pela minha existência não estar sendo notada naquela calorosa manhã, a campainha tocou. Esperei que a pobre espírito se desse conta de algum erro e se fosse. Cedi depois de duas músicas ruins.

“Pois não…”

“O Senhor é Alberto Koisalguma?…..”

“Talvez…..e o Senhor é……”

“Apenas um leitor……fiquei sabendo que o Senhor está escrevendo um livro novo……”

“Pode ser…….sou escritor…….escrevo nas horas vagas……então é possível que sim……”

“Li num site que o livro é sobre um grupo de jovens viciados em drogas, mas que apesar disso conseguem se dar bem no final……….”

“Não vi esta notícia……….”

“Mas o Senhor acredita que alguém pode se dar bem na vida sendo um viciado em drogas?………”

“Veja bem………isso tudo é muito relativo…….quem é o Senhor mesmo?………..”

“Só um leitor que quer saber o q……”

“Um leitor sem nome?……..”

“Porque o Senhor precisa saber o meu nome para me responder?……….”

“Não sei…….porque o Senhor está na porta da minha casa?……..sabe meu nome, endereço………”

“O Senhor é um artista, famoso……….vida de artista é assim……..”

“Assim?…….como?…….”

“O Senhor sabe…….tem que atender o público……dar autógrafo, tirar fotos.……fazer o que ele quer………”

“Não, não sei………..”

“O que o Senhor não sabe?………..”

“Como é a vida de um artista………”

Entrei e fechei a porta. Pensei que aquilo só podia ter sido algum tipo de alucinação tardia do boa noite Cinderela que coloquei na minha bebida na noite passada. Espiei pelo olho mágico e o cidadão sem nome ainda estava lá. Parado. Inerte. Postado nos seus 1,75m e uns 100kg. Vestindo calça jeans, sapatênis e camisa para dentro. Meia e cinto combinando. Cabelo moreno curto penteado para o lado e barba feita. Podia sentir notas de bergamota, cassis e gálbano do perfume dele entrando pela soleira. Ele tirou o celular do bolso e começou a digitar. Ameaçou uns sorrisos. Colocou o telefone de volta no bolso. Olhou em torno de si mesmo. Coçou o rosto. Depois a perna. Bocejou. Respirou fundo. E não saiu do lugar. Depois de vinte minutos resolvi tomar uma atitude.

“Se o Senhor não sair da porta da minha casa vou chamar a polícia……..”

“Porque?……..O que estou fazendo?……..”

Não quis saber para que lado o sujeito se esvaiu. Voltei para o sofá e me concentrei em esperar tocar alguma música do Terreno Baldio. Acendi um baseado pensando como o tal lunático tinha conseguido meu endereço. Poderia ser um bom conto. Talvez um argumento para uma série ou filme. “Um fanático que persegue um escritor para dizer à ele o que fazer.” Sim, deve ter algo parecido por aí. Bem parecido. Mas dá para fazer diferente. Nada se copia, tudo se transforma. Os detalhes específicos das histórias não se repetem. Os diálogos levam a ações diferentes. Personagens são outros. Enfim, a ideia não é ganhar o Oscar, só estar no mercado. Queria sentar no computador, começar a fazer pesquisas e escrever na velocidade do pensamento, mas não consigo. Falta alguma coisa. Vontade, coragem, esperança. Whatever. As dores estão passando, a vida está passando e uma hora ou outra essa coisa que está faltando emerge a partir da compressão do aluguel + necessidades alimentares, físicas e psicológicas + formas de entretenimento forçado. Com esse compromisso firmado, peguei uns trocados para ir na padaria abastecer o estoque fumófito. Coloquei o pé para fora e vi o cidadão de bem sentado na calçada da frente. Fui na direção dele.

“O Senhor está me assustando……”

“Queria só dizer que o Senhor não pode escrever um livro onde viciados em drogas se dão bem no final……”

“Porque não?……….”

“Por que isso não está certo……….quem usa drogas tem que se dar mal no final…..o mocinho e a mocinha tem que acabar juntos e o vilão morto…..….a vida é assim……..o livro também tem que ser…….”

“Olhe……….tudo bem………entendo……..mas não……é…….ok……..prometo que vou levar em consideração………se for escrever sobre o assunto……..é o suficiente para o Senhor sair da frente da minha casa?…….”

Com olhar de desconfiado ele acenou com a cabeça que sim. Virei as costas e torci para ele estar longe na hora que chegasse da padaria. Quando eu voltasse ia fumar um baseado e ir na imobiliária procurar outra casa.