Família Pereira [conto]

Foi um dia duro de trabalho. A obra estava atrasada, e todo o peso dos prazos perdidos incidia na equipe de assentadores de piso. José estava com as costas doloridas de ficar abaixado martelando, delicadamente, cerâmica o dia inteiro. Duas horas de trabalho = dez minutos de descanso. Meia hora para o almoço. Dez horas por dia. Os 45 anos estavam tornando aquele ritmo um fardo que em algum momento ia cobrar seu preço. “E quando isso vai ficar pronto?……já faz dez dias que você chega em casa neste estado…..”. Gabriela se importava, no sentido de defender o marido de um abuso. “Mais uma semana……..acho……”. José terminou a pratada de arroz com feijão e se levantou. “Vou dar um bico ali no bar e já volto….”. “Posso ir?……..deixa mãe….”. Gabriel levantou o olho do celular e viu a chance de faturar algum doce. Gabriela acenou que sim com a cabeça, mas puxou o canto inferior do lábio para baixo e fez uma expressão de quem sabia das segundas intenções ali contidas. Enquanto os dois saiam ela começou a recolher a louça e voltou suas atenções ao som de uma novela, que vinha da televisão no quarto do casal, único cômodo da casa, além do banheiro. 

Nos poucos metros que separavam a casa do bar, pai e filho tentavam se entender. “O que você fica fazendo nesse celular?……..” José deu o bote e pegou o telefone da mão de Gabriel, que não tinha percebido a pergunta. “Ei……pai……devolve……..”. “Que jogo é este?……..”. “Free Fire………é um campeonato…….dá aqui…….eu vou morrer……”. O jovem tentava tomar o celular de volta, mas José esticou a mão para cima e o deixou inalcançável. “Você tem que estudar moleque……..isso aqui não vai te levar a lugar nenhum…..não…….”. José devolveu o celular para Gabriel, que ficou resmungando a morte virtual, e entrou no bar. Para o patriarca aquelas palavras eram uma lição que todo pai deveria dar aos filhos. “Libera um gole da branquinha aí, por favor, Seu Dirceu……….você vai querer o que Gabriel?…..”. “Bolinha de chocolate…….”. O senhor atrás do balcão serviu ambos, e quando viu José tirar um comprimido de relaxante muscular do bolso, e mandar para dentro com o primeiro gole, puxou conversa. “A obra tá pesada lá, Zé?…….”. “Trabalho sempre é, né?………não sou desses pilantras que ficam por aí reclamando, não………se tem que fazer, tem que fazer………oras…..”. Seu Dirceu olhou os outros cliente, para ter certeza que ninguém prestava atenção na sua conversa com o amigo, e continuou messiânico. “Deus está vendo, Zé………sua recompensa virá……..pode escrever o que estou falando……..segue nesse caminho……….e cuidado com as crianças……..” Gabriel tinha dispersado a atenção para mesa de bilhar, na qual dois sujeitos pomposos jogavam as bolinhas com a mão e um terceiro fumava sentado vendo o jornal. “Ei……..vamos embora……”.   

Enquanto caminhavam o filho reconectou a vida ao jogo. José sentia o coquetel começar a fazer efeito e relaxava. “Você ainda quer ser piloto de avião quando crescer, Gabriel?……”. “Não sei……acho que é muito difícil……”. “Nada é difícil para quem tem fé, meu filho…….nada……”. Os dois entraram em casa. O filho deitou no sofá-cama disposto no canto da cozinha e o pai foi para o quarto. Gabriela estava deitada na cama vendo televisão. “O Gabriel foi dormir?….”. “Deve estar jogando naquele celular……..ele só faz isso o dia inteiro?…..”. “Ele está de férias……deixa ele…….ele comeu muita porcaria?”. “Um torrãozinho de doce de leite e um chocolate………..nada demais…..”. “Nada demais……..depois ele começa e ter dor de dente e eu que tenho que enfrentar fila no postinho de manhãzinha……”. José trocou a calça, e a camisa, por um shorts e uma camiseta velha, e deitou na cama. Gabriela chegou mais perto dele e se aconchegou em seus braços. “Trabalhar nesse ritmo vai machucar você Zé………vou voltar a lavar roupa pra fora e você tem um tempinho para arrumar trabalho numa obra normal…….”. O marido apertou a esposa contra seu peito. “Fica tranquila amor……..você tem que ficar em casa e cuidar do Gabriel…….e eu de vocês dois………você não tem que lavar roupa para ninguém…….não…..”. Gabriela retribuiu o aperto e começou a alisar o peito de José por debaixo da blusa e a beijar sua nuca. “Hoje você vai ter que fazer o trabalho todo querida………não estou com forças…….”. “Estou menstruada……..é só um aperitivo pro meu homem dormir melhor……”. Ela se abaixou e fez um boquete em José, que pegou no sono antes mesmo dela voltar do banheiro depois de lavar a boca.   

Gabriela deitou ao lado do marido e continuou assistindo televisão. Ela olhava para José pensando na sorte que tinha em ter casado com ele. Se tivesse sido com o Carlos, seu único namorado além de José, agora ela poderia estar como a mulher dele, a Sandra, sofrendo com um viciado e vagabundo. De repente um motor reduzindo bruscamente e pneus derrapando acordaram José. As portas abriram e o som pesado dos passos se sobrepunham ao da correria. Começaram os tiros. José jogou Gabriela da cama para o chão e saiu correndo para a cozinha acudir Gabriel, que estava abaixado do lado do sofá-cama. O pai se jogou junto ao filho e a mãe veio em seguida. Os tiros pararam, os passos fecharam as portas e o barulho do carro em fuga começou a aliviar as tensões. Gabriel levantou e saiu correndo pela porta. José foi atrás tentando controlar o ímpeto do jovem. “Calma…..ainda é perigoso……filho…..”, mas este só parou de correr três barracos para baixo. Seu Dirceu estava jogado no canto do bar com os olhos meio abertos e com sangue escorrendo. Gabriel contou sete buracos de bala pelo corpo. “Porque sai sangue da boca dele se ele não tomou tiro na boca……pai?…..” “Não sei……deve ter estourado todo ele por dentro……” As pessoas começaram a aparecer e se amontoar. Alguns choravam, uns estavam atônitos, uma pequena parte apontava culpados, e outros tentavam ajudar. Havia  gemidos de dor e agonia pelo bar. José abraçou o filho e os dois começaram a se afastar. “Quando pipocaram o tio Mané, saia sangue da boca e do nariz também……”.